Literatura pela cidadania

Em 2006, na cidade mexicana de Nezahualcóyotl, o governo municipal escolheu uma ação curiosa para o aprimoramento do efetivo policial: incentivar a leitura. A cidade já teve o maior índice de criminalidade em uma área metropolitana violenta, e a corrupção e a brutalidade da força policial eram apontados como um dos agravantes da insegurança municipal. Com a justificativa de que isto poderia melhorar o cenário, o governo enviou uma lista de obras literárias como “sugestões” oficiais para os agentes em serviço. Entre os livros escolhidos, estavam Dom Quixote, Pedro Páramo, Aura, O labirinto da solidão, Cem anos de solidão, O pequeno príncipe, contos de Edgar Allan Poe.

Para implementar a proposta, o governo de Neza implantou bibliotecas para os policiais a partir de doações privadas e a participação em workshops literários foi encorajada, computada no cálculo das promoções. Uma série de livros em torno do tema da justiça foi lançada, de distribuição gratuita entre policiais. O primeiro livro, de contos, incluía, junto a Raymond Carver e Bertold Brecht, o brasileiro Rubem Fonseca.

Em uma entrevista ao Financial Times, o chefe de polícia de então explicou que um policial deve se comunicar com fluência, e precisa conseguir falar com todos, “até com delinquentes”. A literatura ajudaria na comunicação ao aumentar o vocabulário, além de enriquecer a experiência do policial indiretamente, aumentando a empatia, e incentivando sua convicção sobre bons valores a serem defendidos.

James Wood, crítico literário a partir do qual descobri essa notícia, observou o aparente paradoxo da iniciativa, em tempos modernos. “Hoje em dia, o culto da autenticidade afirma que ninguém tem mais conhecimento do mundo – mais presença no mundo – do que o policial em serviço”.

Autoria: Moema Vilela
Doutoranda da Faculdade de Letras / PUCRS
Colaboração:
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